quarta-feira, 30 de abril de 2014

Lapidando um nativo de Áries.

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De tudo que eu me lembro da minha história, de todas as soluções mágicas que arrumei para seguir firme na vida, tudo resume-se em fuga.
Desde antes de ser possível notar-me como uma fugitiva eu já o era.
Comecei a andar cedo, com 9 meses; acredito que o fiz apenas para poder ir a lugares mais distantes e quietos. Não falava, demorei a falar, meus pais achavam que eu era muda, faziam simpatia, promessa e reza brava para quem sabe talvez virem a escutar a minha voz...eu podia falar, mas não queria.
Desde pequenina a única coisa que me interessava era correr, sumir, desaparecer. Pegava sozinha o meu travesseiro e saia da companhia dos adultos, para dormir em paz.
Cresci e as coisas mudaram um pouco, mas só um pouco, agora eu falo.
Não percebo-me cansada de fugir, eu sei que deveria, mas a vida nos prende em nossos próprios hábitos e logo estamos confortavelmente imersos no vicio cíclico de sermos sempre os mesmos, cheios de truques para suportar a nossa tola existência.

Cobro-me, amarro meus pés e afrouxo meus lábios, afim de que eu aprenda (enfim) a me expressar melhor e a correr um pouco menos.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Todo resto não.

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Escrevo em primeira pessoa, porque não viro as costas para as palavras. Para todo resto, talvez o faça, mas para as palavras não. As combino e encaro: de frente, por baixo, de dentro, por cima e por fora. Porque de tudo que eu não tenho, daquilo que eu sempre quis e nunca foi meu, dos meus sonhos, lutas e devaneios o que me restam são palavras, combinadas, ardidas e liquidas. 

As palavras são minhas, todo resto não.

Em construção




Quanto mais eu penso menos eu consigo chegar em algum lugar.
Eu preciso mergulhar fundo em algumas questões afim de quem sabe me entender um pouco, só um pouco mesmo, o mínimo para eu poder suportar quem eu sou, o que eu escolhi e ser feliz com tudo isso, que de fato é enorme e muito especial.
Faz tempo que eu não escrevo com seriedade as reflexões atuais e as minhas novas maneiras. Passei por muitas fases nesses últimos anos, acho que vivi vidas inteiras em alguns meses, e é fato que mudei muito.
Com toda minha franqueza, as vezes eu paro para pensar em que tipo de gente eu me transformei e, por deus, eu não tenho a menor idéia!
Eu já quis mudar o mundo e hoje em dia eu penso exatamente como aquelas pessoas que me entristeciam naquele tempo, seres cinzas apáticos, que até já sonharam, mas que hoje sabem que o mundo valeria muito mais se não fosse por nós.
De tudo que eu já julguei importante hoje me restam poucas coisas, tão poucas que eu talvez nem as saiba as identificar assim de pronto; essa minha nova fase está marcada por uma voz interior amena, que diz em um mantra um constante “deixa para lá”, é uma postura absolutamente focada em deixar os outros serem, fazerem e agirem como quiserem, seria uma virtude se eu não tecesse comentários internos sobre tudo isso, é um não julgar como exercício, não como essência.
Eu tento compreender toda a gente a qualquer momento, sempre me volto a história pessoal, ao contexto social que aquele ser está inserido, eu perdôo a todos por antecipação, mas apesar de tudo isso me vejo tendo pena e desdém, sentimentos de quem se julga muito superior a tudo isso e a todos eles.
Critico-me severamente em relação a essa postura, entretanto, tendo em vista que virtude nada mais é do que a repetição forçada de uma boa ação tantas e quantas vezes for necessária até virar um hábito inconsciente, perdôo-me por antecipação por ainda não ser tão virtuosa quanto minha consciência julga necessário.
Vejo-me como uma criança muito bem educada e muito bem polida, mas pouco verdadeira com seus impulsos e vontades. Perco-me entre ser, deixar ser e obrigar-me a ser mais e melhor.
Nesses caminhos, exercícios e ações tento identificar o que me compõe de fato, e apropriar-me do que sempre foi meu.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Devolução

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Papai do céu, deus, entidade, energia, extraterrestres... ou à qualquer coisa a quem eu deva endereçar essa carta.
Há tempos venho afirmando que ando meio cansada de ser eu. Hoje após uma sessão de terapia, esse meio tomou corpo e se transformou em um inteiro.Estou absolutamente perplexa com o ser humano que eu pouco a pouco venho descobrindo ser. 
Está certo, eu sempre me soube muito sensível, mas pudera, nunca imaginei trazer tanta falta dentro de mim. Transformei-me em uma colecionadora de migalhas, porque na minha sensibilidade extrema, tudo me faltava. Não quero atribuir culpas a terceiros, para ser bem sincera, culpo-me e de certa maneira me detesto por não saber o que fazer com tudo isso, por não saber como elaborar a minha história de maneira a não desdenhar tudo a minha volta. 
Odeio-me com toda a minha verdade, por não saber pensar nessas carências e lacunas sem doer tanto. Odeio-me por trazer isso quase que como uma assinatura, nas minhas maneiras, falas e abraços. Não suporto meus olhos sempre cheios d’água. Odeio o nó recorrente que se coloca em minha garganta por qualquer coisa que arda meu peito. 
Eu juro que não consigo entender de onde surgiu essa alma com tamanha predisposição a derreter.
Não sou religiosa, mas se há almas, acredito que haja alguém que as envie, sendo assim venho por meio desta, relatar um engano a quem quer que seja o responsável.
Essa combinação não está dando muito certo, você ou vocês erraram a mão na dosagem dos elementos. Está sobrando muita coisa. Como não sou uma pessoa de pedir(você(s) bem sabe), venho apenas devolver os excessos.
Eu andei tentando viver assim mesmo, achava que era um karma, mas pensando melhor, acho que está errado, de verdade. Não faz sentido algum ter essa alma e viver nesse mundo.
Espero que me entenda(m) e remaneje(m) essa sensibilidade a tantos quanto for possível.