quarta-feira, 19 de março de 2014

Camaleão


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Não é fácil, não poderia ser fácil.
Viver é deveras complicado a maioria da gente, para mim, que não me fiz pertencer a essa classe superior de animal é ainda mais difícil, para não dizer dolorido.
A mecânica de ser "humano" não foi por mim compreendia, não aprendi as matérias das aulas, não fiz a lição de casa, não comprei o livro nem me dei ao trabalho de ler ao resumo.  
Nada fazia sentido, nenhuma combinação de números, nenhuma proporção, nenhum tratado, nem revolução. Tudo chegava-me como zumbidos a perturbar toda a minha noção de realidade.
Deixei a prova em branco, mas a assinei, apenas para dizer que eu existia.
Em tudo que se tratava de ser gente fui reprovada desde sempre e até hoje.
Errei, errei e errei. Apenas me recordo de sucessões de erros quando tento me lembrar do tempo em que eu tentava fazer parte de alguma coisa.
Pudera, esse mundo não me coube (ou fui que fui demais para ele, ou de menos).
Entretanto, mesmo sem ser gente, misturo-me razoavelmente bem; as pressas, aos goles e aos tragos, passo despercebida.
A noite todos os gatos são pardos e na cidade entre tanta gente ninguém repara a fundo quando não há mais ninguém a reparar.

Por Pamela Facco

terça-feira, 11 de março de 2014

Das injustiças do mundo (e das nossas)

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De que vale se gastar a sentir sempre tanto?
De que vale a extensão da alma e a nossa tola consciência sobre nós? 
O que fazemos com tudo que é de tão certo e simples para a nossa felicidade, quando é a complicação que está na moda, complicação defendida com fervor por aqueles que foram adestrados pela cultura da liquidez a serem sempre o menor possível, a fazerem sempre o mínimo, a darem cada vez menos de si para cada vez menos pessoas.  
Nesse vicio epidêmico de minimização pego-me assistindo inúmeros shows  de nulidades. Vidas inteiras gastas em nada, para nada e por nada, eu chegaria a ter pena do mundo, se não enxergasse certa esperteza nessas vidas tolas e vãs.
Eles caminharão por todo esse labirinto úmido e gelado, sem sentirem grandes desconfortos, sem perceberem que não há saída, nem tampouco janelas...sem sentirem esse inverno rigoroso grudado na alma nem terem seus olhos molhados e ardidos por todas essas infinitas paredes brancas e frias.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Inconstante

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Que coisa mais difícil é essa de tentar ser um ser  por inteiro, se ouvir, se preencher e se respeitar. Ao mesmo tempo, saber que se é um par e sentir o dever de fazer isso tudo pelo outro também. Tentar salvar dois seres simultaneamente do vazio e da angústia que toda pessoa um pouco mais sensível trás dentro de si; as vezes parece menos dolorido não ser nada nunca, do que tentar ser um e ser dois ao mesmo tempo sempre e sempre tudo não basta. Sempre sobram rombos nas nossas almas, vácuos e abismos entre um par. Não quero atribuir títulos nem nomes às coisas que vivo, queria apenas desabafar que não há nada mais contraditório do que o sentir. Até ontem antes do meio dia a minha vontade mais genuína era de pular a janela, sair correndo, virar o tabuleiro, assoprar o castelo de cartas, por tamanho desconsolo e solidão. Hoje, sinto-me acolhida pelo mundo, cheia de carinho e com uma saudade leve, por uma ausência tão curta do meu amor.

Nunca soube apreciar as nuanças do sentir, nunca nem ao menos as soube identificar.

Quando quase me sinto um pouco calma e sutilmente feliz, já pego-me elevando tudo, preenchendo todas as minhas lacunas com pensamentos, sentimentos, lembranças e pessoas que me alegram. Junto tudo de bom que eu tenho e saio a rodopiar, a conquistar o mundo e todas as almas, ainda que sem sair do lugar. Entretanto quando algo me deixa quase chateada, todos os sinais de incompatibilidade que ficaram minimizados pela alegria, recebem grifos e flechas, tudo que me fiz em algum momento relevar volta em forma de um gigante perverso a pisar em tudo que sinto e tenho. Nessas horas sinto-me menor do que qualquer inseto e mais desolada do que um filhotinho de qualquer coisa sozinho no meio de uma noite escura.

Não sei como ser feliz se me faço e me refaço tantas horas e a cada hora sinto ser uma nova pessoa. Um pêndulo constante variando entre a completude e felicidade versos um sentimento de solidão e angústia sem fim.